quarta-feira, 21 de setembro de 2011

amor é em 3D

para André Rosa, e todos os filmes que vimos e veremos juntos


somos um pouco feitos
dos filmes que vimos juntos
daqueles detalhes enquadrados
projetados

daquela poesia de movimento
detalhe, luz, cor, som

somos um pouco feitos
de roteiros antigos
adaptados pela manhã
e originais ao cair da noite

somos feitos
dos filmes que ainda veremos
daquele outro tempo
inventado em tela grande

dos clichês das nossas conversas
das falhas de continuidade
das explosões americanas
dos romances franceses
dos melodramas espanhóis

há em nós, talvez
algum efeito especial
alguma parte de nós anti-natural
terceira dimensão do nosso afeto

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

3x4 ou Ontem foi dia dos pais?



"Porque há o direito ao grito. Então eu grito." Clarice Lispector

Faz tempo que eu sei o que é tristeza. Desde o tempo, aquele, em que lembro ter me enxergado pelas primeiras vezes: olhos atentos, camisetas furadas, cabelo preto e torto (que era cortado pela própria mãe no quintal de casa), chinelo de dedo, esperança aguda na barriga que às vezes disputava espaço com um bom bocado de fome. A feiura de uma pobreza que não é mostrada na novela.
Visitas esporádicas ao presídio em visita ao pai. Muitos irmãos, na verdade seis. Mas que soavam milhares quando havia a hora de dividir alguma coisa, reivindicar outras.
Ausência de alguns anos, coisa da primeira infância.
Não me lembro o dia exato que o pai saiu da prisão, e até hoje nem sei direito o motivo. Na verdade não quis até hoje saber. A impressão é que quanto menos sabia mais distante eu estaria. O que é uma mentira comprovada a duras penas, já que quanto mais me afasto de algumas coisas mais elas grudam na minha perna.
Cresci nesse movimento de vai-e-vem. Fugindo da irrealidade - por deus, como eu gostaria mesmo que fosse somente uma irrealidade - nos livros, nas contas, nos cadernos. Ao mesmo tempo que as teias grudentas da família agarravam a minha perna.
Tantas cabanas feitas de cobertas acobertaram tantas lágrimas.
Fui uma criança que chorou muito, e o choro era sempre uma prece, um pedido. Choro de criança pra mim é sempre uma reza ao amanhã.
E era uma fé danada essa de criança. Fé de ter mais comida, de sair pra lugares legais, de fazer curso de inglês, de entender o porquê gostar de meninos, de querer aparelho nos dentes, de querer ser feliz.
Cresci de mãos dadas com a tristeza, até por ainda não ter conseguido o curso de inglês, o aparelho nos dentes, e uma porção de coisas que se não são necessárias são bastante sentidas pelos que sempre viram e nunca tiveram. Apesar de saber disfarçá-la (ela, a tristeza) melhor (?). Ainda restaram sonhos, descontentamentos que fazem mover, necessidades que fazem doer.
O teatro veio a mim primeiro como um possível esconderijo. Claro que algum tempo depois ele me deu uma rasteira tão bruta que na hora eu cai de cara no chão. Até hoje cuspo um pouco da poeira da queda que levei. Ele jogou em cima de mim tudo o que eu escondia e me envergonhava. Me mostrou que as teias continuavam grudadas na minha perna, mas que agora não estavam só na perna, subiam pelas costas, pelos braços, na cabeça, em toda parte. Quase morri quando vi que tudo continuava grudado. Que o fato de eu ter virado estudante universitário e viver pelo centro da cidade não fez com que eu mudasse. Apesar de eu ter crescido um pouco, mas ainda sei o que é tristeza.
Ainda existe a dificuldade em manter-me firme. O mundo me quer forte e tantas vezes eu estou fraco, fraco.
Ontem fui dia dos pais. Na verdade é hoje, como não dormi e ainda são 2:29h da madrugada, direi que ainda é.
A casa da família caiu quase que literalmente, contradizendo a lenda da data comemorativa.
E o menino não quer mais só chorar na cabana de cobertas.
Por um instante eu gostaria de adormecer por 1 mês, por 1 ano. Mas o medo de continuar no mesmo lugar me tirou o sono com força. Medo e um pouquinho de fé.
Há tempos que eu queria ser pai. Necessidade talvez besta de fazer diferente com outra criança que precisa de colo.
Talvez seja o que eu preciso. Precisão que antecede o gosto, a ideia, a vontade.
No entanto é preciso escrever, é preciso continuar.
O meu trabalho vem carregado disso tudo, não há como fugir de mim naquilo que me revela mais.
Tem muita tristeza nele: nas cenas, nos escritos. E tem más memórias, cobertas que acobertam medos, crianças com frio, desconhecimento, desamor.
É tudo um rio de lágrimas minhas e do mundo. São águas infantis que desabo sobre a vida. É minha prece ao amanhã.

domingo, 14 de agosto de 2011

Agosto ou A importância da chuva

choro engasgado é pior que doença
essas dores, pequenas e grandes
não passam de comprimidos
compridos minutos dilatados
e embalados de rancores

não passa com remédio
não é tédio, é pior

não passa com música
não passa com palavra
não passa com comida
quase passa com água
mas não passa

lágrima parada na garganta é pior
que espinha de peixe
que osso de galinha
que café quente demais

tapinhas nas costas não faz passar
quase passa com água
mas não passa

em agosto faz tempo esquisito
meio seco, meio frio
aparece nuvem
mas quem disse que chove?

em agosto dá nó no meu peito
todo ano é a mesma coisa

quem disse que chove?

quase chove quando vou ao cinema
quase chove quando vejo criança
quase chove quando leio poema

mas a chuva só vem de verdade
quando a primavera está pra chegar
quando as lagartas querem mudar
quando as cores querem aparecer

por enquanto o que eu tenho é cinza
um pouco mais escuro o da parte de dentro
denso, próprio, fundo
e mais claro e sociável (ainda assim cinza)
o do lado de fora, o do lado do mundo

cinza só é bom quando deságua em azul
o ciclo da lágrima, li isso em algum lugar
minhas folhas só crescem quando chove
e eu só cresço quando choro

domingo, 24 de julho de 2011

guardados do homem vazio



minha mala está vazia
cheio está o pobre do meu peito

roupas e papéis amarelados

memórias encardidas de tempo
rasgadas pelo passado
e cheirosas de afeto

também se encontra no pobre peito
enroladinhas pra não fazer volume
caricaturas velhas de velhos amores
salpicadas de rancores
e ainda boas de se lembrar

um bom bocado de lugares
detalhes, minúcias
cartas, retratos
discursos, canções
espalhadas pelos cantos

pobre peito cheio
de tão cheio transbordante

de homem vazio para o mundo
tenho um mundo de coisas por mim

segunda-feira, 30 de maio de 2011

hoje eu sou silêncio

outrora quis falar pelos cotovelos
quis correr com meus pensamentos
quis abraçar com as minhas pupilas

outrora eu quis música
fogos de artifício
pequenos e grandes barulhos

mas hoje eu sou silêncio

quero ouvir e dizer palavras quietas
emudecer a voz de menino-homem
calar pesadelos e sonhos

porque hoje eu sou silêncio

de afetos, artérias, neurônios
estou cansado por todos os ângulos
e só por hoje não emitirei o menor ruído

que seja
que assim seja
que assim

silêncio

quarta-feira, 4 de maio de 2011

eu me visto de palavras com a sacralidade de quem se veste para um ritual

para Viviane Mosé


tenho as palavras de domingo, vistosas e soberbas
e as palavras de sábado, festeiras, noturnas

embriagadas são minhas palavras de sexta-feira

na quinta visto palavras de prenúncio
em tons de verde, azul celeste

quarta-feira necessita de sobriedade
palavras básicas, palavras práticas

palavras claras para uma terça-feira de Sol

já minhas palavras de segunda, cheias de categoria
são de cores quentes
pra eu ter coragem nesse outro recomeço

segunda-feira, 25 de abril de 2011

há sempre a tentativa de falar dos olhos teus

duas chamas curtas
pequenas meninas queimadas

castanho terra chão
paralisia e tristeza

adoece a pálpebra
deixando cair os pelos
cabelos
cílios cintilantes

lá pelo alto
das sombrancelhas negras
o mito se emoldura
sem razão

duas poças mais que cheias
lama lágrima enluarada

me umedecem vagarosamente
da pupila até o osso

e piscam pensamentos
ora de paixão, ora de pesar
nesse pobre poeta cego
que ouve teus olhos assim

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um bilhete grande, não uma carta.

São exatamente 14:31H.
Eu estou aqui cansado de tanto descansar nesse feriado.
Entre um pensamento e outro me bateu uma vontade grande de te escrever. Um turbilhão de palavras estava pronto a se tornar carta. Mais uma.

Mas acontece que me lembrei que amanhã nos veremos. E quis economizar meus verbos, meus substantivos...

Claro que a vontade continua. Daí esbarrei com o Caio, o nosso querido Caio. E quis fazer uso do copiar e colar que o virtual me proporciona e mandá-lo pra ti. Porque ele nos lê como ninguém, e porque acredito que esse será um ótimo mote para o nosso encontro que virá.

"-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu." CFA

Não disse?
Tenho tanta inveja dessa simplicidade prolixa que ele tem.
Queria te escrever somente bilhetes, como este (?). Queria te dizer mais através de mais silêncios. Queria voltar para as minhas poesias curtas.

Até amanhã.

Com afeto,

Carlos

quinta-feira, 31 de março de 2011

Outono

Não é impressão, o tempo mudou.
Mesmo quando se vive em São Paulo e no Século XXI. Mesmo com o tempo maluco que se vive lá fora. Se vive - como na sutileza das borboletas que vejo vez ou outra - na mudança mínima de ares.

O Outono é para mim um prenúncio, uma anunciação de passagem. A vida que começa a tomar fôlego para suportar o período de morte trazido pelo Inverno.

E não há ser vivente mais inteligente que o tempo. Nas suas passagens em ciclos, o eterno nascer e morrer.

Perco folha por folha e me desnudo sem pudor. É dor e alívio de descanso. Solto aquilo que apertava contra o peito e deixo que se vá.

Não é impressão.

Nas minhas folhas havia muita coisa escrita, palavras envelhecidas que precisavam morrer.

Não tem porque manter o que já está gasto, já está apodrecendo. O efêmero é tão belo, mas é preciso saber ver.

E eu que estou mais para Cigarra que para Formiga, e que desminto que nós não trabalhamos. Acontece que existem outras formas de se organizar, outras formas de construir, que não o sacrifício que os homens se orgulham. Não preciso estar num rebanho, estou muito bem caminhando na margem.

Vou me recolher e descansar o meu pobre olho humano que precisa de estímulo e de óculos para que consiga ver, e essa minha pobre pele humana que precisa ganhar forças para suportar o frio sem precisar criar para si uma couraça.

O tempo mudou.

sexta-feira, 18 de março de 2011

sobre o tempo, e sobre as borboletas que foram lagartas e logo serão cadáveres

passa, voa, respira
e é de uma beleza

em mim ele move
repuxa, grita

navalha no rosto
sulcos na pele
neve nos cabelos

se envelheço?

sim, eu respondo

o tempo passa em mim
e é uma transa doida

não é apodrecer
deteriorar
mofar na gaveta

é deixar morrer
deixar viver

deixar

...

que eu me arraste
que eu crie asas
que eu saiba morrer

que eu saiba deixar

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Só estou conseguindo escrever cartas.

É um pouco cruel o que estou fazendo comigo, me aproveitando do fato de estar sensibilizado ao extremo para poder escrever. Mas tudo bem, preciso aproveitar o embalo: a música de fundo, a chuva que cai lá fora, a chuva que cai aqui dentro.
Pois é uma dor tão necessária essa. Viver é muito maior que eu, no entanto eu insisto. Insisto como se eu vivesse numa guerra em que estivesse preso ao matar e ao morrer.

Como sabe eu não sou simples. E me orgulho muito de não o ser. Simples no que se diz respeito a humildade, a percepção da vida, ao enxergar e ao fazer.

Minha alma é prolixa, inquieta, larga. Firo com uma facilidade gigantesca, talvez a mesma facilidade com a qual me machuco.
Sou uma das pessoas mais fortes que conheço, mas também uma das mais covardes, sobretudo em relação ao amor e aquilo que me lembre a minha infância solitária.

Dou risada de quase tudo, mas tenho uma imensa necessidade de chorar de tempos em tempos.

Talvez tenha mais defeitos que qualidades, o que me humaniza. E o que faz com que não sinta uma culpa cristã toda vez que assumo que sou bom em muitas coisas também.
Atualmente não estou conseguindo escrever minhas poesias. Faz um tempo já... E só consigo mesmo é escrever cartas.

Toda vez que escrevo uma carta arranco um pedaço do meu corpo e envio para uma pessoa. Esse pedaço é teu, pode pegar.
Devo ter começado essa carta já com a ideia fixa de doar um pedaço meu. Eu não estou mais me cabendo em mim. Veja onde um ser humano é capaz de chegar: tão fundo, tão fundo, tão fundo.

É... Aqui eu continuo chovendo por dentro.

Não sei se com amor, mas com loucura sim,

Carlos